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Confraria da agulha

Na Olimpíada de 1984, ciclistas americanos competiram à base de sangue – de outras pessoas


O técnico Borysewicz, ao centro, supervisionou uma sessão de doping sanguíneo num quarto de hotel dias antes da Olimpíadas. Steve Hegg, à direita, foi um dos participantes

Faltavam menos de três meses para o início das Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, quando a União Soviética anunciou que estava fora. O boicote, seguido por 14 países do bloco socialista, abriu caminho para a supremacia dos donos da casa: a delegação americana terminou os Jogos com 83 medalhas de ouro, quatro vezes mais que o segundo colocado. O país triunfou em modalidades que já dominava, como natação e atletismo, e em outras em que não tinha tradição, como o ciclismo. A vitória dos EUA nesse caso, porém, ficou literalmente manchada de sangue.


Poucos dias antes da competição, vários ciclistas foram levados pela comissão técnica a um quarto de hotel em Carson, na região de Los Angeles. Supervisionados por um médico da delegação, sete membros da equipe americana injetaram nas veias grandes quantidades de sangue de terceiros. Alguns atletas receberam sangue de parentes, mas em outros casos os doadores eram apenas portadores do mesmo tipo sanguíneo.


Dos sete ciclistas envolvidos, quatro subiram ao pódio nos Jogos dias depois. Um deles, Steve Hegg, levou a medalha de ouro na prova de perseguição individual, mas outros dois passaram mal após receberem suas doses. Um atleta que viria a conquistar uma medalha de prata nos Jogos estava na fila da agulha até o último instante, quando foi convencido a não participar.


O caso só veio à tona em janeiro de 1985, mais de cinco meses após o fim da Olimpíada. “Estou surpresa que ninguém tenha morrido”, disse a campeã olímpica Connie Carpenter-Phinney à revista Sports Illustrated, primeira publicação a tratar do escândalo. Em Los Angeles, Connie levou o ouro na prova de estrada individual ao derrotar, por milímetros na linha de chegada, a compatriota Rebecca Twigg, uma das que se submeteram ao procedimento.


O que a equipe americana praticou foi uma versão estabanada da autotransfusão, uma tentativa questionável – embora permitida à época – de elevar a resistência dos atletas na véspera da competição.


Não se trata exatamente de doping. Segundo o método tradicional, um atleta retira determinado volume do próprio sangue – que pode ultrapassar um litro – semanas antes de uma competição. Em seguida, retoma os treinos gradualmente. Na véspera da prova, então, o sangue é descongelado e reinjetado. O objetivo é que o acréscimo repentino de glóbulos vermelhos facilite a condução de oxigênio para os músculos, o que garante, em tese, uma melhora de desempenho.


Na autotransfusão, o atleta tira litros do próprio sangue e o reinjeta às vésperas da competição. Como não teriam tempo de fazer o processo com o próprio sangue, porém, ciclistas americanos recorreram ao de terceiros – uma ideia estupidamente arriscada

O primeiro astro olímpico suspeito de autotransfusão foi o corredor finlandês Lasse Viren, quatro vezes campeão olímpico em provas de longa distância na década de 1970. Viren, porém, sempre negou a prática. Quem confessou o uso do método foi um compatriota de Viren, o também fundista Kaarlo Maaninka, nas Olimpíadas de Moscou, em 1980.


Um dos entusiastas da autotransfusão na equipe de ciclismo dos EUA era o treinador polonês Eddie Borysewicz. Recrutado pelos americanos após cruzar a cortina de ferro, nos anos 70, Borysewicz estava convencido de que os rivais já utilizavam o procedimento e seus pupilos não poderiam ficar para trás.


Um dirigente e um médico da federação de ciclismo dos EUA também eram partidários da técnica, mas não havia consenso. Por essa razão, apenas um ciclista, Danny Van Haute, submeteu-se à seringa durante o torneio seletivo para as Olimpíadas. O resultado aparentemente encorajou a comissão técnica a estender a autotransfusão a outros atletas.


O problema é que não havia mais tempo para aplicar o método da forma correta. Como a seletiva ocorreu apenas três semanas antes do início das Olimpíadas, não seria mais possível para os ciclistas retirarem o próprio sangue e estarem em forma a tempo de competirem. Por isso escolheu-se recorrer a doadores externos. Uma opção temerária, que potencializa as chances de contaminação.


Apesar dos riscos, a dopagem sanguínea não configurava, até aquele momento, nenhuma irregularidade. Embora já houvesse uma lista de substâncias proibidas sujeitas a regras antidoping, a autotransfusão era um método desconhecido, para o qual não havia meio de detecção.


Não houve, portanto, grandes consequências aos ciclistas americanos. Borisewicz e um dirigente foram suspensos por um mês, mas nenhum atleta foi punido, inclusive os que subiram ao pódio em Los Angeles. O episódio, de toda forma, abriu os olhos dos americanos, que proibiram a tática em 1986. O COI seguiu o exemplo anos depois.

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