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A rainha da primavera

Ginasta Vera Caslavska precisou se esconder nas montanhas quando seu país foi invadido pelos soviéticos. Na Olimpíada, lavou a alma

Para vencer a competição de ginástica nos Jogos de 1968, no México, Caslavska derrotou um exército de geniais atletas soviéticas (Reprodução / Olympic Channel)

Uma jovem de 26 anos fazia exercícios num gramado em frente a uma cabana nas montanhas, no norte da Tchecoslováquia. Ela passava os dias carregando sacos de batata, subindo em árvores, correndo. Precisava se manter em forma porque dali a dois meses estaria num ginásio, diante de 12 mil pessoas, com uma tarefa espinhosa: defender o título de melhor ginasta do mundo.


Vera Caslavska estava preocupada. Fazia três semanas que estava naquele retiro, longe do centro onde treinava para os Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México. Sua vida havia virado de cabeça para baixo no dia 21 de agosto, quando milhares de tanques do Pacto de Varsóvia invadiram seu país. Comandadas pela União Soviética, as tropas chegavam para sufocar a Primavera de Praga, um movimento de abertura política que tentava reformar o sistema em vigor havia vinte anos.


Caslavska foi alertada para sumir dali, e nem precisaria de alerta. Ela sabia que não gozava de simpatia dos invasores porque havia sido, três meses antes, signatária do manifesto das duas mil palavras, um documento que criticava duramente o regime comunista e foi apoiado por vários intelectuais e artistas. Não era desprezível o peso da assinatura da atleta, que já era uma estrela do esporte e ídolo no país.


Sem pensar duas vezes, aceitou a ajuda de um amigo e se mandou para Šumperk, uma cidadela de 25 mil habitantes ao pé dos morros de Jesenik, nos sudetos, até a poeira baixar. Enquanto isso, dezenas de pessoas morreram e centenas se feriram na resistência. Outras 70 mil fugiram do país.


Invasão soviética em 1968 interrompeu um processo de abertura polític na Tchecoslováquia (CIA)

A ginasta chegou a pensar que não teria chance de ir ao México para tentar vencer, pela segunda vez, a prova individual geral da ginástica artística, destinada a coroar a atleta mais completa do mundo na modalidade. Em Tóquio, quatro anos antes, ela tinha levado o ouro nesta competição e outros dois em aparelhos individuais, a trave de equilíbrio e o salto sobre o cavalo.


No Japão, Caslavska fez sucesso com o público e até ganhou, de um torcedor mais emocionado, uma espada samurai do século 17, relíquia de família. A tcheca ainda era uma secretária de 22 anos, anônima fora das fronteiras da Tchecoslováquia, mas já acumulava sete anos de carreira em alto nível. Sua caminhada na ginástica tinha raízes na adolescência, quando atendeu a um chamado do governo por jovens talentos no esporte.


Às vésperas dos Jogos de 1968, o panorama era outro. Embora não fosse um ícone televisivo como as ginastas que viriam na geração seguinte, lideradas por Nadia Comaneci, Caslavska era esperada por todos no México. E isso era impossível de ignorar. Recém-instalado no poder, o novo governo tcheco preferiu não pagar o preço de mais um atrito internacional e liberou a delegação para as Olimpíadas.


Avisada da trégua, Caslavska voltou em segurança e embarcou com o time rumo aos 2.250 metros de altitude da Cidade do México, o primeiro local da América Latina a sediar os Jogos Olímpicos. A perspectiva de competir naquelas condições atmosféricas, de tirar literalmente o fôlego, levou vários países a despacharem suas equipes com muita antecedência, em busca de aclimatação.


Quando as tchecas enfim pousaram no aeroporto Benito Juárez, na capital mexicana, suas adversárias soviéticas já estavam lá, treinando. Se esperava uma disputa renhida entre Caslavska, a campeã olímpica, e um grupo de geniais ginastas soviéticas.


Sua maior rival, porém, estava do lado de fora do tablado. A ucraniana Larissa Latynina, recordista mundial de medalhas até ser superada pelo nadador Michael Phelps, quase cinco décadas depois, havia se aposentado depois de 1964. Foi ao México como treinadora.


A dança do sombreiro


Cento e uma ginastas se apresentaram para competir no dia 21 de outubro, já na segunda metade dos Jogos. E Vera tomou a cena para si. Nos exercícios de solo, preparou uma rotina ao som do Jarabe Tapatío, a dança do sombreiro, um símbolo musical do México. Com o gesto, conquistou o coração da torcida, que já vinha naturalmente hostil aos atletas soviéticos por conta da geopolítica.


Parecia que Caslavska levaria o ouro sozinha nessa prova. A arbitragem, no entanto, deu uma ligeira revisada para cima na pontuação da russa Larissa Petrik, e as duas terminaram rigorosamente empatadas. A torcida vaiou os juízes, mas não teve jeito: ambas dividiram o primeiro lugar.


No pódio, as bandeiras da Tchecoslováquia e da União Soviética subiram lado a lado, e Caslavska ouviu compenetrada o hino tcheco, primeiro a tocar. Ao soar o hino russo, porém, a ginasta baixou a cabeça para o lado, de forma a não mirar a bandeira soviética no mastro.



O gesto foi deliberado e compreendido imediatamente. A ginasta escolheu deixar claro que era adversária do governo recém-instalado, e fez isso sabendo que o regime só tendia a endurecer pelos meses que viriam. Quando chegou ao México, o levante estava totalmente sufocado havia semanas, e a derrota já vinha sendo digerida.


Situação semelhante havia passado a Hungria, doze anos antes, quando o país foi invadido às vésperas dos Jogos de Melbourne. Naquela ocasião, os húngaros saíram do país sem saber se a revolta anti-soviética triunfaria, e só na Austrália descobriram que ela fora sufocada. As tensões desembocaram em episódios ásperos entre atletas dos dois países, o que culminou com uma pancadaria entre os times no pólo aquático masculino.


Uma semana antes da vitória de Caslavska, os americanos Tommie Smith e John Carlos haviam levantado luvas negras em punho na premiação dos 200 metros rasos. O ato não foi engolido pelo empreiteiro Avery Brundage, presidente do Comitê Olímpico Internacional.


Brundage, o dirigente que convenceu os Estados Unidos a participarem das Olimpíadas de 1936, na Alemanha nazista, pediu a cabeça dos velocistas americanos e foi atendido. Eles foram expulsos da delegação e banidos de futuros Jogos. De volta para casa, chegaram a sofrer ameaças de morte e passaram por apertos financeiros.


Caslavska já sabia de tudo isso quando decidiu protestar, mas não temia do COI uma reprimenda semelhante, e não houve. No México, foi exaltada pela imprensa e pelo público, que torceu por ela em peso.


Na final da trave de equilíbrio, os torcedores vaiaram furiosos quando a ginasta ganhou uma nota que pareceu baixa, e só sossegaram quando ela foi alterada. Desta vez em segundo, a tcheca foi ao pódio com rivais soviéticas, como nas outras provas, e com elas trocou cordiais apertos de mão. A todas, disse que as respeitava como atletas, mas não podia deixar de se posicionar.


Trocada por petróleo


Vera Caslavska se aposentou assim que concluiu o último exercício em solo mexicano. Encerrou sua carreira olímpica com um total de 11 medalhas, sete delas de ouro. Seguiu no centro das atenções no dia seguinte, ao se casar com o corredor Josef Odlozil. O cortejo até a cerimônia, na catedral metropolitana do México, foi acompanhado por 10 mil pessoas.


Àquela altura uma celebridade mexicana, a ginasta teve que sair por uma porta lateral e se refugiar da muvuca no carro de uma emissora de TV. Jornais informaram que o Comitê Olímpico Mexicano chegou a oferecer ao casal uma lua de mel em Acapulco, mas eles recusaram. Diziam ter uma grande recepção à espera deles na Tchecoslováquia.



A volta para casa foi de fato calorosa, mas a relação com o novo governo entrou logo no modo Guerra Fria. Ela teve uma filha e tirou um tempo para si até que, dois anos depois de seu triunfo olímpico, foi às autoridades pedir um emprego como treinadora. Os mandatários pediram, em troca, que ela retirasse apoio ao manifesto das duas mil palavras. Caslavska se recusou e foi punida com o ostracismo.


Impedida de trabalhar com esportes, precisou aceitar vários outros trabalhos para se sustentar. Teve também que devolver ao governo todos os prêmios e honrarias que havia recebido do Estado em sua carreira. E o marido, que também era medalhista olímpico, foi dispensado do Exército por também ter assinado o documento da oposição.


Depois de anos nesta condição semi clandestina, ela tomou uma medida drástica. No início de 1974, apareceu na federação de esportes da Tchecoslováquia vestida com um collant de ginástica, como se estivesse pronta para competir. Disse que não sairia da sala dali sem um emprego de treinadora. Depois de alguma negociação, foi enfim atendida.


A vigilância, no entanto, não foi interrompida. Caslavska passou a treinar as ginastas mais promissoras do país, mas não tinha autorização para viajar com elas em competições internacionais. Escreveu uma autobiografia, mas só conseguiu publicá-la no Japão e, mesmo assim, com vários trechos censurados pelo governo tcheco. Sua vida continuava sendo ditada pelos rumos da geopolítica. Em 1979, recebeu um convite para treinar a seleção de ginástica do México.


O governo tcheco autorizou que ela saísse do país com toda a família num acordo com o governo mexicano que, segundo ela, envolveu o fornecimento de petróleo para Cuba, parceira do Pacto de Varsóvia na região. A ex-atleta passou mais de dois anos no país que a transformara em heroína uma década antes.


No México, porém, seu casamento com o corredor Odlozil entrou em declínio, e os dois se divorciaram em 1987. Àquela altura, o regime comunista tcheco já começava a balançar, até ser deposto de forma não violenta dois anos depois, no levante conhecido como Revolução de Veludo.


Com suas vitórias no México, Caslavska encerrou a carreira olímpica com 11 medalhas, sete delas de ouro (Reprodução / Olympic Channel)

Enfim reabilitada, Caslavska virou uma figura política relevante. Era conselheira de Václav Havél, o líder dissidente que viria a ser o último presidente da Tchecoslováquia e o primeiro da nova República Tcheca, separada da Eslováquia em 1993. Assumiu, em seguida, a presidência do recém-emancipado comitê olímpico tcheco.


Naquele mesmo ano, contudo, uma tragédia se abateu sobre a vida da antiga campeã olímpica. Seu ex-marido Josef Odlozil, que um mês antes havia voltado ao país de uma missão com os capacetes azuis da ONU, foi morto por Martin, o filho caçula do casal, que tinha então 19 anos.


Os jornais deram conta de que os dois tiveram uma briga e Josef teve um ferimento fatal depois de bater a cabeça no chão. Martin passou quatro anos preso, até conseguir um perdão presidencial em 1997, e Caslavska mergulhou num período difícil. Depressiva, sumiu dos holofotes e passou anos reclusa até emergir lentamente a partir de 2007. Voltou a aparecer em eventos, dar palestras e se posicionar politicamente. Continuava intransigente no anticomunismo.


Septuagenária, a ex-ginasta teve vida pública até descobrir um câncer no pâncreas, que lhe tirou a vida no dia 30 de agosto de 2016. Entre os ex-atletas que a homenagearam, estava a soviética Larissa Latynina, com quem Caslavska travou uma das maiores rivalidades da história da ginástica. Em entrevistas, Latynina contou que as duas nunca deixaram de ser amigas. Trocavam presentes e discos de vinil.

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