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O ouro das herdeiras

Excluído das Olimpíadas por causa da segregação racial, Zimbábue voltou em grande estilo e venceu o hóquei feminino. Mas as campeãs eram filhas da elite branca que havia dividido o país


Campeãs olímpicas do hóquei. O time era do Zimbábue, mas as jogadoras eram todas brancas (Reprodução)

O campo anexo ao Estádio Dínamo, em Moscou, estava pronto para a cerimônia de premiação do hóquei na grama dos Jogos Olímpicos de 1980. Impecáveis em seus elegantes paletós azuis, meias três quartos e saias da mesma cor, dezesseis moças brancas se alinharam junto ao pódio para receberem suas medalhas de ouro. Era a primeira vitória olímpica do Zimbábue, país africano que havia conquistado autonomia e reconhecimento internacional menos de um ano antes.


A unanimidade da cor da pele das jogadoras era incompatível com a nação que elas representavam, mas não era uma coincidência. Enquanto o país chamou-se Rodésia e foi governado por uma minoria branca, que não chegava a 10% da população, atletas negros eram praticamente impedidos de jogar hóquei e vários outros esportes.


Assim como boa parte do continente africano, a Rodésia foi uma colônia europeia até o final da década de 1950. Mas tomou um caminho diferente dos vizinhos em 1965, quando a elite local declarou independência do Reino Unido sem aderir à política britânica de transferir o poder para a maioria negra. Por essa razão, o país jamais foi reconhecido pelas potências ocidentais e virou pária internacional ao lado da África do Sul, que vivia sob o apartheid desde o final da Segunda Guerra Mundial.


O mundo acordou para o caso sul-africano em novembro de 1962, quando a ONU condenou a segregação no país e conclamou seus membros a um boicote por todas as vias possíveis. Uma delas era o esporte: a África do Sul passou quase trinta anos excluída das Olimpíadas e impedida de disputar vaga na Copa do Mundo. Os banimentos só caíram no início dos anos 1990.


Durante o apartheid, o racismo no esporte sul-africano era escancarado e reforçado por todas as leis que blindavam os brancos do contato com a maioria da população. Na Rodésia a exclusão era menos institucional, mas igualmente visível. Além das razões socioeconômicas que já afastavam a população negra dos esportes dos colonizadores, como críquete, golfe, tênis e rugby, os clubes onde se praticavam essas modalidades ainda tinham autonomia para barrar a entrada de quem julgassem indesejável.


Na Rodésia o racismo era menos institucional que na África do Sul, mas igualmente visível. Além das razões socioeconômicas que já afastavam a população negra dos esportes dos colonizadores, como críquete, golfe, tênis e rugby, os clubes onde se praticavam essas modalidades ainda tinham autonomia para barrar a entrada de quem julgassem indesejável

Apesar desse cenário, a Rodésia foi autorizada a disputar as Olimpíadas de 1964 e só perdeu as duas edições seguintes, em 1968 e 1972, por um obstáculo geopolítico, já que não era um estado admitido oficialmente. O continente africano já vinha pedindo uma investigação sobre as políticas raciais no esporte da Rodésia, mas a questão só foi enfrentada em abril de 1974, quando o Comitê Olímpico Internacional mandou uma comissão de três dirigentes para uma visita in loco. Um deles era Sylvio de Magalhães Padilha, à época presidente do Comitê Olímpico Brasileiro.


A equipe do COI não gostou do que viu. Além de presenciarem a exclusão dos negros de clubes privados, os emissários denunciaram, por exemplo, que negros vinham sendo impedidos de frequentarem piscinas públicas, o que levou a Rodésia a ser expulsa da Federação Internacional de Natação (FINA). Também se descobriu que um torneio de natação foi proibido na capital, Salisbury, porque não teria restrições raciais. O país mandava equipes competitivas para disputar os Jogos Paralímpicos – que ainda aceitavam até a África do Sul –, mas as delegações eram inteiramente brancas.


Outra descoberta foi a de que o governo proibia competições escolares entre crianças de raças diferentes, regra que só era quebrada se os pais autorizassem, por escrito, a integração entre os estudantes. Mas algumas famílias argumentavam que o esporte escolar multirracial “se prestava à subversão comunista” e as autoridades faziam coro à narrativa, afirmando que os eventos inclusivos significariam uma “integração forçada”.


Quando o COI publicou o resultado de suas diligências, dezenas de países africanos pressionaram pela expulsão da Rodésia do movimento olímpico. Os dirigentes locais tentaram barrar a medida, alegando que as seleções formadas no país eram compostas por atletas negros – o que era verdade em alguns esportes, noutros nem tanto – e que o governo não se metia no assunto.


Paradoxalmente, os esportes olímpicos eram justamente os que mais resistiam à penetração do racismo na Rodésia. Era o caso do atletismo, que nunca proibiu a participação de negros em competições domésticas ou no exterior, e do futebol. Mas não houve conversa: por 41 votos a 26, o COI revogou a filiação do país.


Por conta de sua política racial, a Rodésia roubou de uma geração de atletas talentosos a oportunidade de disputar uma Olimpíada. Era o caso do velocista Artwell Mandaza, um operário de uma mina de cobre que chegou a bater um recorde mundial não oficial dos 100 metros rasos. Ele correu a distância em 9s90, mas a marca não foi ratificada porque a velocidade do vento estava acima do limite.


Outra vítima do banimento foi Bruce Kennedy, atleta do lançamento do dardo. Em 1972, aos 21 anos, ele já estava em Munique para as Olimpíadas quando a Rodésia foi excluída a menos de uma semana da cerimônia de abertura. Quatro anos depois, ele nem chegou a viajar a Montreal para os Jogos de 1976.


Essa Olimpíada também sofreu com o boicote de 29 países africanos, que haviam pressionado pela expulsão da Rodésia, ficaram igualmente de fora em um protesto contra a Nova Zelândia, cujo time de rugby havia furado o bloqueio internacional e visitado a África do Sul. As delegações africanas promoveram um boicote à Olimpíada, em bloco, porque o COI recusou-se a expulsar os neozelandeses.


Kennedy mudou-se para os Estados Unidos e, depois de conquistar a cidadania americana, garantiu uma vaga para os Jogos de 1980, em Moscou. Em março daquele ano, porém, o presidente Jimmy Carter anunciou que os EUA boicotariam o evento em resposta à invasão do Afeganistão pelas tropas da União Soviética. Pela terceira vez, o atleta teve que ver a Olimpíada pela televisão.


Num lance irônico para Kennedy, os ventos haviam virado em sua terra natal. Depois de 15 anos de guerra civil, o país finalmente derrubou o regime colonizador, teve eleições livres e voltou aos Jogos Olímpicos, agora rebatizado de Zimbábue. Kennedy poderia, se quisesse, ter ido a Moscou pelo país africano, mas preferiu ficar de fora por lealdade aos EUA.


Jogadoras do Zimbábue comemoram o ouro no hoquei [The Sunday Mail]

Dos seis países classificados para o torneio de hóquei feminino em Moscou, cinco seguiram os americanos e boicotaram os Jogos. A um mês do evento, o Zimbábue acabou recebendo um convite da União Soviética, sua aliada durante os anos de guerra civil, e convocou um time às pressas. Sendo o hóquei um esporte fora do alcance dos negros nos anos de segregação, não era surpresa que todas as convocadas fossem filhas da elite branca da finada Rodésia.


Depois de viajarem num avião de carga, as jogadoras chegaram a Moscou sem nenhuma expectativa, mas as equipes adversárias eram igualmente sem expressão. Em campo, as zimbabuanas empataram dois jogos e venceram três, inclusive contra as anfitriãs soviéticas, o que bastou para levarem uma das medalhas de ouro mais inesperadas daquela Olimpíada. O governo comemorou a conquista e prometeu um boi como prêmio a cada jogadora (na volta para casa, o mimo acabou reduzido a uma peça de carne por atleta).


E o atleta Bruce Kennedy, que perdeu três Olimpíadas, finalmente realizou seu sonho e participou dos Jogos seguintes, em 1984. Era um dos porteiros do Estádio Coliseu, em Los Angeles, no dia da cerimônia de abertura.


Homenagem ao time campeão num almanaque esportivo da antiga Rodésia (Henk van Rooyen - Rhodesian Sports Profiles)

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