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O conto do Apolinário

Maratonista de Belize já estava expulso da equipe por trapacear nas corridas. Mas queria muito ir à Olimpíada e arranjou outro país para bancar seu sonho


Apolinario Belisle já era famoso na região de Los Angeles por trapacear em maratonas, mas forjou a própria identidade e foi às Olimpíadas (Reprodução / Los Angeles Times)

Faltavam menos de duas semanas para as Olimpíadas de 1988, em Seul, quando o jornal Los Angeles Times deu destaque a um morador local que estava de malas prontas para os Jogos. Apolinario Belisle Gomez, um maratonista de 22 anos que morava nos Estados Unidos desde criança, defenderia as cores de sua terra natal, Belize, um país caribenho que não chegava a 200 mil habitantes àquela época.


Para ser incluído na diminuta equipe que iria à Coreia do Sul, o atleta enviou uma carta aos dirigentes de Belize. Fez um texto pedindo uma vaga e anexou um documento atestando que havia ficado em quarto lugar na Maratona de Long Beach, na Califórnia. Avisado de que teria que arcar com as próprias despesas, orçadas em 3 mil dólares, Belisle correu atrás de patrocínios e juntou o dinheiro. “Eu quero ganhar o ouro”, disse ao jornal.


Não deu ouro. Belisle viajou e competiu, mas acabou na 98ª colocação, o último entre os que completaram o percurso. Fechou os mais de 42 quilômetros em 3 horas e 14 minutos, quase uma hora acima do seu alegado recorde pessoal. O atleta contou ter vomitado durante a prova e culpou a gastronomia coreana pela indigestão.


De infância pobre e pais divorciados, Belisle gostava de correr desde pequeno. Sua mãe chegou aos EUA sozinha, trabalhou como doméstica em bairros ricos de Los Angeles e conseguiu dinheiro para buscar o filho depois de alguns anos. Passada a decepção com o resultado em Seul, ele passou a treinar de olho na Olimpíada de 1992, em Barcelona.


Em março de 1991, o mesmo LA Times informava que ele não só tinha garantido outra vez um lugar no time olímpico de Belize como era sustentado pelo governo do país, para treinar. Ele convenceu os dirigentes a apoiá-lo ao conquistar o 22º lugar na Maratona de Los Angeles, com o respeitável tempo de 2 horas e 24 minutos.


Dois meses depois, Belisle correu outra maratona na Califórnia, a de Long Beach, e ficou em quinto lugar. Alguns dias mais tarde, porém, descobriram que ele não aparecia em nenhuma imagem de cinco câmeras diferentes na altura dos 15 km. Era um indicativo de que Belisle teria abandonado o trajeto, cortado caminho de alguma forma e retornado mais à frente. Acompanhado de um advogado, o corredor foi chamado pelos organizadores para esclarecer o mistério e foi incapaz de apontar a si mesmo nas telas. Acabou desclassificado e perdeu o prêmio de 2 mil dólares a que teria direito.


A trapaça em maratonas é tão antiga quanto o próprio evento. Na primeira Olimpíada moderna, em 1896, o grego Spyridon Belokas chegou em terceiro lugar, mas teve o feito anulado por cobrir parte do percurso numa carroça. Oito anos depois, nos Jogos de Saint Louis, o americano Fred Lorz desistiu antes da metade da prova, pegou carona num calhambeque e entrou no estádio a pé, em primeiro lugar. Só foi desmascarado quando estava prestes a receber a medalha. Se já era difícil enganar os organizadores naquele tempo, a situação só piorou com a sofisticação gradual da segurança nas corridas de rua.


Alertados sobre a desclassificação de Belisle, os dirigentes cortaram o apoio imediatamente. Sem patrocínio e sem país para representar, ele não poderia ir à Olimpíada de 1992. “Podemos ser um país de terceiro mundo, mas persistimos na honestidade”, disse Joan Burrell, presidente da antiga associação atlética amadora de Belize.


O maratonista, porém, fazia o que podia para manter de pé sua narrativa mesmo após a rejeição dos conterrâneos. A duas semanas dos Jogos, garantia que tinha vaga na equipe, que viajaria à Espanha com os próprios recursos e levaria até a esposa para cozinhar para ele e blindá-lo de um novo infortúnio com a culinária local. Bom de papo, ele continuou em busca de patrocinadores dispostos a contribuir com seu projeto olímpico.


Um destes mecenas, um músico de jazz que não quis revelar seu nome à imprensa, afirmava ter dado 3 mil dólares ao atleta ao longo de três anos. Belisle, segundo esse artista, chegou a pedir a casa dele emprestada para um sarau de despedida rumo a Barcelona. O músico negou o pedido, e só perdeu a paciência quando alguns gaiatos desavisados bateram à sua porta, dias depois, prontos para a festa.


A trapaça em maratonas é tão antiga quanto o próprio evento. Na primeira Olimpíada moderna, em 1896, um corredor grego chegou em terceiro, mas teve o feito anulado por cobrir parte do percurso numa carroça

Com as portas de Belize fechadas, o maratonista teve uma ideia: ligou para o presidente do Comitê Olímpico de Honduras, Julio Villalta, e se ofereceu para representar o país. Belisle contou que era hondurenho, havia emigrado quando criança e vivia nos EUA desde então, com um green card. Para persuadir o dirigente, mandou um recorte de jornal mostrando seu 11º lugar na maratona de Los Angeles daquele ano, outra façanha que já tinha sido anulada pelos organizadores. Sem saber de nada, Villalta achou que Belisle tinha caído dos céus e o convidou para correr por Honduras.


Com dinheiro emprestado da própria mãe, o novo hondurenho pagou sua passagem e embarcou para Barcelona sob o nome de “Apolineria Belisle Gomez”. Instalou-se na vila olímpica, mas logo teve o disfarce derrubado pelos antigos colegas de Belize, que o reconheceram. Um deles, que dizia ter dividido um quarto com Belisle nos Jogos de 1988, afirmava que ele era um corredor medíocre e que ficou em último lugar em Seul porque saía farrear todas as noites, até de madrugada, na véspera da competição.


Denunciado, Belisle foi excluído da equipe de Honduras e expulso da vila olímpica. Só que Villalta, o chefe da equipe, cometeu o deslize de deixar o ex-pupilo ficar com dois “suvenires”: seu crachá e seu número de inscrição – o papel de identificação que é pregado na camiseta de cada atleta.


Os documentos bastaram para Belisle iludir a segurança e se alinhar entre os 110 competidores da maratona, às 18h30 do dia 9 de agosto, como se nada tivesse acontecido. As imagens da prova mostram que ele correu junto aos líderes por pouco mais de um quilômetro, ponto em que sumiu na massa de corredores e foi ficando para trás até desistir.


Belisle perdeu a corrida, mas não a pose. De volta aos EUA, mandou uma carta ao mesmo músico que o havia patrocinado e pediu mais recursos. Desta vez, incluiu no envelope uma foto da largada da maratona de Barcelona e desenhou uma seta apontando para si próprio. “Eu corri nas Olimpíadas”, escreveu.


No mesmo ano de 1992, apareceu como vencedor da Dam Tough Run, uma corrida de 62 quilômetros ao redor de um lago no interior da Califórnia. Mesmo sem experiência em ultramaratonas, chegou em primeiro lugar e ainda bateu o recorde da prova por mais de dois minutos, o que levantou a suspeita imediata dos concorrentes. Belisle, porém, tinha registrado sua passagem por todos os 19 pontos intermediários do trajeto e, diante da falta de provas de fraude, teve a vitória mantida.


Ainda houve registros, nos anos seguintes, da participação de Belisle em corridas de rua, mas nenhuma outra trapaça foi noticiada. Em 2002, dez anos depois de sua aventura em Barcelona, o atleta correu novamente a maratona de Los Angeles. Fechou o percurso em 3 horas e 21 minutos, desempenho que lhe rendeu a 388ª posição. Aparentemente, correu com as próprias pernas do começo ao fim.

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