top of page

A corrida maluca

Maratona de 1904 teve gente perseguida por cachorros, intoxicada pela fumaça de carros e um trapaceiro desmascarado na hora em que ia receber a medalha de ouro


Correndo debaixo de sol forte, Hicks tomou uma mistura de clara de ovo e estricnina, regada a conhaque francês (Museu de História do Missouri)

O público que ocupava o acanhado estádio para 9 mil pessoas em Saint Louis, no meio-oeste dos Estados Unidos, já esperava por mais de três horas debaixo do sol quando entrou pelo portão o líder da corrida. Com um passo seguro e relaxado, o nova-iorquino Fred Lorz venceu os metros finais e cruzou a linha de chegada da maratona dos Jogos Olímpicos de 1904.


Lorz foi chamado à presença de Alice Roosevelt, filha de 20 anos do presidente Theodore Roosevelt, para receber sua medalha de ouro. Naquele momento, porém, surgiu na arena outro americano, Thomas Hicks, um vulto pálido que completou a prova aos trancos e barrancos. Enquanto a torcida aplaudia o que parecia ser a chegada do segundo colocado, dois auxiliares de Hicks correram para protestar junto aos juízes.


Fred Lorz havia trapaceado. Depois de percorrer 15 dos 40 quilômetros do trajeto, o americano desistiu e subiu num dos carros que escoltavam os atletas. Lorz aproveitou a carona até as imediações do quilômetro 30, quando o veículo quebrou e ele decidiu voltar a pé ao estádio. Passou pelo portão, foi inebriado pelo êxtase da massa e estava prestes a aceitar a premiação quando foi desmascarado. Era um desfecho apropriado para um dos episódios mais bizarros da história olímpica.


A maratona teve um percurso tortuoso e esburacado que passou por várias vias de terra batida, cujo pó era lançado no rosto dos atletas pelos carros de apoio. Um dos competidores engoliu tanta poeira que desmaiou à beira da estrada, sufocado

Tanto a maratona quanto as próprias Olimpíadas eram conceitos incipientes em 1904. Depois de duas edições na Europa, os Jogos foram levados pela primeira vez aos Estados Unidos, mas quase nenhuma delegação europeia se dignou a cruzar o Atlântico. O evento, que se prolongou por mais de quatro meses, não passou de um convescote local atrelado à Exposição Universal, uma feira mundial sediada em Saint Louis, no estado do Missouri, para divulgar as novidades da tecnologia e do consumo naquele início de século XX.


Brincadeiras de gincana, como o cabo de guerra, valeram medalha em 1904, e ainda levaria décadas para que modalidades como basquete, judô e vôlei fossem incluídas no programa. Mas a maratona já era algo relativamente familiar nos EUA: um ano depois que a prova foi criada na Olimpíada inaugural de Atenas, em 1896, nascia a maratona de Boston. Trata-se de um evento anual que foi realizado sem interrupções por 124 anos até ser cancelado pela primeira vez em 2020, devido à pandemia do Coronavírus. Outras cidades, como Buffalo e Nova Iorque, também já tinham organizado corridas de rua.


Com essa experiência a favor dos anfitriões, era razoável esperar uma maratona sem sobressaltos quando os 32 atletas, dos quais 19 americanos, se alinharam para a largada no estádio Francis Field às três da tarde de 30 de agosto de 1904. O horário, por si só, já não era aconselhável para correr sob uma temperatura de 28º C à sombra, mas os responsáveis pelo evento arquitetaram um inferno.


Para começar, só instalaram dois pontos de acesso a água ao longo do trajeto. A decisão parece absurda aos olhos de maratonistas contemporâneos, acostumados a ter à mão esponjas molhadas e copinhos de plástico a cada 5 quilômetros ou menos. Mas em 1904 essa carestia foi deliberada: os organizadores usaram a competição para testar alguns efeitos das corridas de resistência no corpo humano, inclusive a desidratação.


A isso somou-se um percurso tortuoso e esburacado que passou por várias vias de terra batida, cujo pó era lançado no rosto dos atletas pelos carros de apoio. Um dos competidores, o californiano William Garcia, engoliu tanta poeira que desmaiou à beira da estrada, sufocado. Quando finalmente o resgataram, foi direto ao hospital para tratar de sangramentos internos.


Sob tais condições, só chegaram ao fim 14 participantes, menos da metade dos inscritos. Um deles era o cubano Feĺix “Andarín” Carvajal. Forjado para o atletismo em seu ofício de carteiro, que o obrigava a correr longas distâncias, Carvajal ouviu falar dos Jogos e resolveu participar. Juntou dinheiro para a viagem, tomou um barco e desceu em Nova Orleans, na Louisiana, onde perdeu todas as economias jogando dados. De carona em carona, chegou a Saint Louis na véspera da maratona. Vestia camisa de manga longa, sapatos pesados e calças compridas, que tiveram que ser cortadas na altura dos joelhos.


Outros estrangeiros na largada eram Len Tau e Jan Mashiani, que entraram para a história como os primeiros atletas olímpicos da África subsaariana. Os dois haviam atuado como mensageiros na Guerra dos Bôeres, conflito em que o império britânico esmagou duas repúblicas independentes fundadas por holandeses na África do Sul, e estavam na América a serviço de um militar exilado, ex-general do exército derrotado. Durante muito tempo eles foram tratados nos livros como “zulus” e seus nomes eram grafados erroneamente, até que uma pesquisa em 1999 descobriu suas reais identidades.


Nos quilômetros finais, Hicks progrediu entre trotes e caminhadas, mas foi ganhando uma palidez cadavérica e chegou a sofrer alucinações (Museu de História do Missouri)

Nos trechos urbanos da prova, os corredores eram forçados a ziguezaguear entre bondes, carros e transeuntes. O sul-africano Len Tau, que corria descalço, teve até que se desviar do percurso para fugir de um cachorro bravo que o perseguia, mas retomou o trecho e chegou em nono lugar. Mais à frente, o cubano Carvajal parava a cada tanto para conversar com os espectadores. Em dado momento ele resolveu subir numa árvore para comer maçãs, mas as frutas lhe deram dor de barriga. Mesmo assim acabou na quarta posição.


Um a um, os favoritos ao ouro – três ex-vencedores da maratona de Boston – foram abandonando a disputa, com cãibras, vômitos ou desidratação. Thomas Hicks, que era um corredor de retrospecto mediano, liderou até o quilômetro 30, quando chegou à exaustão e quis parar. Em vez disso, recebeu de seus assistentes duas doses de uma mistura de clara de ovo e estricnina. Uma delas regada a um gole de conhaque francês.


Historicamente usada como veneno de rato, a estricnina é um composto que os atletas consumiam, naqueles tempos experimentais, devido a supostos efeitos estimulantes, mas que ataca o sistema nervoso e pode até matar. Ainda levaria muito tempo para que houvesse algum controle sobre o uso dessas substâncias.


O final da corrida foi um martírio. Alternando trotes e caminhadas, o americano progredia à base de baldes de água morna na cabeça, mas foi ganhando uma palidez cadavérica e chegou a sofrer alucinações. Entrou no estádio, terminou a prova num estado lastimável e passou uma hora estirado no chão, sob os cuidados de quatro médicos, até começar a se recuperar. Perdeu quatro quilos e meio.


Fosse pelo “doping” prosaico ou pelo apoio que recebeu dos auxiliares, Hicks seria desclassificado sob as regras atuais, mas sua vitória foi mantida. Já Lorz, o impostor que chegou primeiro graças a uma carona, alegou que tudo não passava de uma brincadeira. Inicialmente banido dos esportes de forma vitalícia, o americano acabou perdoado. No ano seguinte, alcançou a redenção vencendo a maratona de Boston.


Outro que seguiu no esporte foi o Félix Carvajal. Notório em sua terra natal após a aventura americana, o carteiro teve as despesas pagas pelo governo cubano para ir aos Jogos Intercalados de 1906, uma Olimpíada não-oficial feita em Atenas para comemorar os dez anos da primeira edição. Após desembarcar na Itália, porém, Carvajal sumiu e chegou a ser dado como morto, até reaparecer em Cuba a bordo de um vapor espanhol.

Comentários


bottom of page